9.11.07

O poder do cinema

Na aula de Cinema e Literatura visionámos o filme "A Rosa Púrpura do Cairo", um filme de Woody Allen, espectacular e extremamente bem conseguido. Aqui vai o comentário que fiz para entregar ao professor...


"O cinema foi conhecendo várias formas de poder desde o seu aparecimento. No início o choque foi inevitável, não só pelo factor novidade como também pela “espectacularidade”: era um mundo novo, embora sem som, que levava o público mais além; era a entrada num mundo de sonho e fantasia.
Mais tarde, com as melhorias a nível da técnica e com a ajuda de novos suportes tecnológicos (que ajudavam nesta transformação do mundo real em ficção), os filmes já sonorizados embalavam o público numa viagem ainda mais fascinante: aquelas pessoas/personagens que estavam no grande ecrã tinham vida e falavam, cantavam e apaixonavam-se.
Paralelamente aos novos sistemas de suporte e transmissão de filmes iam surgindo novas “modas” e tendências cinematográficas. Do riso passou-se ao romance, e do romance aos pequenos documentários e às aventuras e policiais. O poder do cinema dá-se em dois planos: no plano tecnológico e no plano da narração. Em pouco tempo o mundo viu-se a braços com imensas novidades; o cinema foi, provavelmente, uma das que maior impacto causou.
Mas o poder do cinema ainda se desenvolveu noutro plano: no plano do social. Ir ao cinema era sinónimo de integração, projecção e crédito social; chegou a ser um acto quase sagrado e de “finura” para as gentes citadinas. Mais tarde, e porque os meios de transporte assim o permitiram, organizavam-se sessões ao ar livre nas zonas menos cosmopolitas. Nos Açores, por exemplo, as gentes das freguesias rumavam todas ao terreiro para assistir à “matinée”; os novos filmes eram passados de forma gratuita (embora com um atraso bastante acentuado relativamente à data de estreia). Era uma forma de estar em contacto com o resto do mundo, com a novidade; também ajudava nas relações sociais e, sobretudo, cativava o sonho. Provocava o riso ou o choro “global”.
Voltando ao poder do cinema, este desenvolve-se em três planos: tecnológico, narrativo e social. Ainda podemos acrescentar mais um. O plano emocional!
Woody Allen conseguiu captar precisamente esse plano em “A rosa púrpura do Cairo” – em 1985 eram visíveis as marcas deixadas pelas “películas” (com tão pouco tempo de vida!). A partir deste filme é possível observar a difícil tarefa que era cortar a relação entre o real e o fictício. Quando se sentava na sala para assistir ao filme, Cecília deixava de ser uma mulher real para embarcar numa viagem ao mundo da ficção. Só ao olhar para o grande ecrã, ela podia sorrir, chorar, sofrer e pôde, inclusive, amar.
Um dos momentos do filme é, sem dúvida, quando o personagem sai do ecrã. É de facto isso que se imaginava quando se ia ao cinema: não se conheciam os actores que representavam esses personagens, nem de como era o making off de um filme; portanto, aquelas pessoas podiam mesmo sair do ecrã! Era como que se a tela tivesse um limite; como se tudo se resumisse àquele pequeno espaço. Nada acontecia fora dali. E aquelas pessoas e aquelas vidas e aqueles lugares existiam de facto.
O cinema veio alimentar o lado fascinante do Homem. Antes, os contos de fadas faziam todas as donzelas esperar pelo seu príncipe que ia aparecer montado num cavalo branco. Com o cinema, quantas mulheres não sonharam vestir aquelas roupas tão pomposas e dançar majestosamente ao som de uma balada de encantar? Ou quantos homens não se imaginaram a dançar com uma musa chamada Marilyn Monroe?
Entre a imagem e o som, entre a comédia e a fantasia, entre o social e o individual, o cinema foi-nos provocando de diversas formas. Primeiro o espanto, e até mesmo o medo. Depois o sonho, o romance… o suspense. O cinema foi também veículo de “modas” e estilos: certas falas, canções, danças, modos de vida, decoração, roupas e cortes de cabelo, e outras formas de estar e ser.
Hoje o cinema já não espanta – à maior parte das pessoas, àquelas que fazem questão em perceber todos os porques e porquês. Continua a ser um avião para a terra da fantasia mas já não nos seduz de forma tão genuína como seduzia Cecília – acredita-se que ainda haverá uma ou outra Cecília por aqui e por ali. Mesmo assim, ainda nos faz sonhar e ainda origina “modas” e estilos (quase melhor que ninguém). "

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