24.4.07

TUNAS - A arte de cantar a Universidade


Da Tunísia chegaram as serenatas, o trinado do alaúde e o som estridente das pandeiretas. Em Espanha nascem os “Sopistas”. No século XIX Coimbra traz a tradição tunante para Portugal.
Em 1991 nasce a primeira Tuna na Universidade dos Açores. Dezasseis anos passados, ainda se questiona acerca do papel das tunas na comunidade académica e na sociedade em geral.

Para o convívio ou para o divertimento, para a integração ou para a música, o que é certo é que as Tunas envergam as cores da Universidade que representam e assumem, actualmente, um papel dinamizador a nível social e cultural. Elas dão voz ao espírito académico e levam longe a tradição, a música e o nome dos Açores e da sua Universidade.


Reza a história que algures em Tunes, na Tunísia, um califa passava os dias a cantar pelas ruas e as noites a encantar donzelas, com serenatas ao som do seu alaúde. Mais tarde, em Espanha, ainda durante a Idade Média, grupos de estudantes universitários pobres animavam as ruas e as praças, conventos e casas de nobres, com as suas músicas e simpatia, em troca de um prato de sopa. À noite os “Sopistas”, como ficaram conhecidos, fugiam das residências universitárias para cantar e encantar as donzelas e, para escapar à polícia, cobriam-se com as suas capas negras e longas, escondendo, assim, os seus rostos. Com o passar dos anos, os “Sopistas” transformam-se em grupos de estudantes que tocam por prazer e não por sobrevivência. Estamos no século XVI e surgem, assim, as Tunas.
Em Portugal, a tradição surge apenas em meados do século XIX quando um grupo de estudantes de Coimbra, numa visita a Espanha, decide trazer a tradição para o país. Assiste-se, então, a um enorme movimento de fundação de Tunas académicas.
Estávamos no ano de 1991 quando é fundada a primeira tuna da Universidade dos Açores, no pólo de Angra do Heroísmo. A “Tuna Académica Sons do Mar” abriu o caminho para a implementação da tradição tunante nos Açores. Em 1993 é fundada a “Tuna Académica da Universidade dos Açores” (TAUA), a primeira do pólo de Ponta Delgada. Seguiram-se os “Tunídeos”, a “Tuna Com Elas”, a “Enf’in Tuna” e a “T.U.S.A.”.


Tuna: representar uma universidade e uma cultura


Relativamente ao papel que as tunas desempenham na vida universitária, as respostas pouco diferem: ajudam e tornam divertida a inserção dos novos alunos na universidade. De facto, fazer parte de uma tuna não é a única forma de se “vestir” o espírito académico mas, para os elementos das tunas da Universidade dos Açores, é uma mais valia porque, para além do contacto que se estabelece com alunos da própria universidade e com a comunidade em geral, permite o contacto com outras realidades, com outras culturas e com outras tunas, quer a nível nacional quer internacional.
Para Darci Santa Rosa, estudante do curso de Pós – Graduação em Bioética, uma tuna desempenha, para além de um papel integrador, um papel de “difusão cultural e de motivação” e permitem um maior crescimento a nível “nível pessoal, porque exige mais delas [pessoas], e a nível cultural também.”
E, serão as tunas meras representantes da sua comunidade académica ou terão uma importância cultural e social fora da sua universidade? Embora não sejam muitas vezes compreendidas como tal, as tunas são, de facto, um pólo dinamizador entre estudantes e sociedade civil, e um fenómeno cultural e social, com uma história secular. Actualmente são mais de cem as tunas portuguesas que representam através da música as suas universidades, as suas cidades e a história do país.
As tunas são um emblema da sua universidade, “motivam a presença de outras pessoas” e “chamam a atenção para a realidade da comunidade académica”. Quando uma tuna “se apresenta, apresenta o nome da sua Universidade”. O estandarte, por exemplo, deverá ter “para além do símbolo da tuna, o símbolo da sua Universidade”, realça Helena Aguiar, Presidente da “Tuna Académica Sons do Mar”. Além disso, é também um símbolo dos estudantes porque “são formadas pelos elementos da própria comunidade académica em que estão inseridas, logo são o reflexo desta”, acrescenta.
Alexandre Gaudêncio, estudante do curso de Mestrado em Ciências Empresariais e maestro da TAUA, refere que quando “uma tuna está a tocar fora do seu ambiente universitário é automaticamente conotada com a Universidade a que pertence”. Associando a representação à tradição do traje, o maestro acrescenta que “nós, na TAUA, temos como regra respeitar o traje, porque temos a noção que, em ambiente de tuna, não estamos só a representar aquele grupo de pessoas, mas sim a instituição e todo o conjunto de pessoas que a compõem”, e daí que “a responsabilidade é muito maior quando temos actuações fora do campus”.


Gerir o tempo, gerar costumes


Para uns mais difícil, para outros nem tanto. Conciliar estudos e tuna não parece ser tarefa fácil de todo. Há que saber gerir o tempo para que se obtenham resultados bons e equilibrados.
Ser membro de uma tuna requer um espírito académico e de convívio um pouco mais arrojado que o habitual. A predisposição caracterizadora dos elementos reflecte-se numa certa disponibilidade horária para os ensaios, actuações e deslocações.
Os ensaios dão-se uma vez por semana, excepto quando se aproxima uma ida a um festival, que implica um maior esforço e preparação da parte do grupo. Há que saber, portanto, gerir o tempo para que os cursos não se prolonguem para além do necessário.
Para Alexandre Gaudêncio é, de facto, “necessário dispensar[mos] algum tempo da semana para praticar em casa as músicas, ir aos ensaios e actuações”, contudo é possível conciliar as duas coisas. A filosofia da TAUA é, actualmente, “colocar o estudo em primeiro lugar”. Prova disso é o facto de poder dizer que “vários dos [nossos] elementos nunca perderam um ano do curso” e há, inclusive, vários finalistas, licenciados e até alunos de mestrados, acrescenta.
Também para Mónica Vieira, Magister da “Tuna Com Elas”, é possível conciliar as duas coisas, “fazer parte de uma tuna não é abdicar do tempo de dedicação ao curso nem é justificação para maus resultados, basta haver uma boa gestão de tempo e tudo se faz”, e é “uma forma de ocupar algum tempo livre […] e acima de tudo criar laços de amizade”. A Magister refere que fazer parte destes grupos “é uma mais valia pois […] tornamo-nos pessoas muito diferentes e aprendemos muito”.
A mesma opinião tem Helena Aguiar, Presidente da “Tuna Académica Sons do Mar”, embora não deixe de confessar que “ (…) em certas alturas se torna um pouco difícil conciliar as duas coisas, mas há que estabelecer prioridades”. E, para além do tempo, manda a vontade pois, “quando se quer e se tem mesmo vontade conseguem-se as duas coisas”.
Pertencer a uma tuna não implica abdicar do estudo. Há cerca de dez anos atrás, havia uma menor preocupação em concluir o curso, pois a inserção no mercado de trabalho estava praticamente assegurada – a tuna estava acima de tudo para muitos tunantes. Actualmente, estar na universidade implica terminar o curso o mais depressa possível para que o emprego seja mais fácil de conseguir. Hoje, estar na universidade é uma corrida contra o tempo e a dedicação à tuna passa para segundo plano.

Tuna: um grupo de boémios?


Durante muito tempo atribuiu-se aos elementos da tuna o rótulo de “boémios”, o que era, de certo modo, verdade, atendendo às raízes da tradição e ao significado etimológico de ‘tuna’ – etimologicamente, ‘tuna’ significa ‘grupos de vadiagem’, ‘boémia’, ‘ociosidade’. O próprio sentido comporta, desde sempre, e de certa forma, uma conotação negativa.
Embora haja uma melhor aceitação da importância cultural e social das tunas, existe sempre quem expresse o seu desapreço pelas mesmas. Para Pedro Fragoso, há sempre alguém que vê na tuna “ (…) um grupo de pessoas que nada tem para fazer a não ser fazer barulho e beber copos”. Mas, “felizmente a maioria da comunidade académica, mesmo não demonstrando, gosta em geral das folias e festas que as tunas fazem, e da animação que estas proporcionam”, acrescenta.
Hoje, ser tunante não é sinónimo de preferir a vida boémia à estudantil. É aproveitar o gosto pela música e pelas tradições académicas, e aliá-lo a um espírito jovem e à diversão.


UAç bem representada dentro e fora da região


Sendo uma tuna um símbolo que representa a universidade, estará a Universidade dos Açores bem representada através das suas tunas? A maioria das respostas será sim.
Seja pelo traje que envergam, pelos emblemas bordados nas capas ou pelo logótipo estampado nos estandartes que giram em cima dos palcos, a tunas açorianas tentam representar a instituição da melhor forma possível. Assim o dizem alguns dos responsáveis.
Para o maestro da TAUA, “ (…) as tunas têm representado bem a UAç” e “prova disso são os inúmeros prémios que todas as tunas têm conseguido”, assim como o grande “número de convites que todos os anos chegam à Associação Académica para que as tunas participem em festivais e actuações”. “Isso só prova que temos qualidade e que essa qualidade está a dar provas dadas fora da nossa universidade”, acrescenta.
A Presidente da “Tuna Académica Sons do Mar” defende que “cada tuna representa a Universidade da maneira que pode segundo as suas capacidades e oportunidades”. Quanto à sua tuna, “apesar das nossas limitações fazemos sempre os possíveis por representar a nossa Universidade em todos os eventos e em todas as ocasiões da melhor maneira possível.” Para Pedro Fragoso, “cada tuna tem opções diferentes em vários pontos, o seu estilo, forma de estar (…) o que torna de certa forma cada tuna diferente”. Quanto às tunas da Universidade dos Açores, “existem várias diferenças entre elas, mas o resultado (…) tem demonstrado que ao longo destes anos as tunas representam, e bem, não só a universidade dos açores, como os açores em geral”. E os festivais são a grande oportunidade para qualquer tuna dar uma boa imagem da sua universidade.

Os Festivais: a força do “F-R-A”

Com o crescente número de Tunas fundadas na região, começaram a surgir certames de carácter competitivo que permitiram o intercâmbio entre as tunas açorianas e outras tunas nacionais e internacionais.
Durante o evento, que acolhe um público notável, embora maioritariamente estudantil, sobem a palco todas as tunas convidadas e as tunas a concurso. Um júri, formado por personalidades ligadas à área da música, avalia todos os pormenores e, dentro dos parâmetros estipulados, atribui os prémios aos grupos a concurso: “Melhor Tuna”, segunda e terceira melhor tuna, “Melhor Instrumental”, “Melhor Solista”, “Melhor Pandeireta”, “Melhor Porta-estandarte” e “Tuna Mais Tuna”.

Estes certames fazem já parte do itinerário cultural dos Açores. Para além de permitirem um convívio entre a comunidade académica e a comunidade açoriana em geral, os festivais possibilitam os intercâmbios entre estudantes açorianos e estudantes de outras regiões do país e do mundo. As tunas levam o nome da região “além fronteiras” e trazem às ilhas gente jovem que busca divertimento, boa música e partilha de histórias, canções e costumes.

“Se ser estudante é ter ânsia em saber e espírito jovem” então, para os membros de uma tuna “ser tuno será exaltar em música e canto o ânimo de ser estudante e o vigor da juventude, virtudes a deverem ser permanentes e sem idade”, representando a universidade, os estudantes, a região, o país, a história e as tradições através da música e do convívio.

1 comentário:

J.Pierre Silva disse...

Peço desculpa pela intromissão, mas a quantidade de erros históricos que propala sobre tunas merecia a minha chamada de atenção.
Sugiro uma leitura por alguns artigos sobre o assunto em: http://notasemelodias.blogspot.com/, bem como em http://asminhasaventurasnatunolandia.blogspot.com/